Filosofia · 4 minutos

Você não construiu tudo sozinho.

Antes de qualquer trabalho, decisão ou criação, já havia um mundo de conhecimentos, ferramentas e estruturas tornando a ação possível.

Nenhuma realização começa do zero. Antes de você trabalhar, decidir, criar ou construir alguma coisa, já existia um mundo cheio de conhecimentos, ferramentas, instituições e estruturas que tornavam sua ação possível.

Pense no que você sabe. Houve estudo, leitura, prática e esforço pessoal. Mas os livros já estavam escritos, a língua já existia, professores organizaram conhecimentos e gerações anteriores produziram descobertas que chegaram até você prontas para serem aprendidas. Você fez o esforço de aprender, mas não precisou produzir antes tudo aquilo que tornou possível o seu aprendizado.

O mesmo vale para uma empresa. Seus fundadores podem ter criado algo novo, assumido riscos e tomado decisões decisivas, mas utilizaram tecnologias que não inventaram, sistemas de pagamento que não construíram, redes de comunicação, energia, estradas, leis e conhecimentos produzidos por outras pessoas. Um escritor escreve seu livro, mas não criou a língua em que escreve. Um profissional desenvolve sua competência, mas trabalha sobre técnicas e descobertas acumuladas muito antes dele.

Nada disso diminui a realização. Criar alguma coisa nova a partir daquilo que já existe continua sendo criação. O problema aparece apenas quando autoria passa a significar independência, como se dizer “eu fiz” também significasse “tudo o que tornou isso possível começou em mim”.

Grande parte do que fazemos depende justamente de encontrarmos um mundo que já estava funcionando. Podemos utilizar mal aquilo que recebemos, desperdiçá-lo, transformá-lo ou acrescentar algo extraordinário a ele. Nossa participação pode ser decisiva sem ser a única causa do resultado.

Por isso, “eu construí isso” pode ser uma frase verdadeira e, ainda assim, incompleta. Você pode ter trabalhado mais do que todos, tomado as principais decisões e sido indispensável para a realização. Ainda assim, muita coisa precisou existir antes que você pudesse começar.

Você construiu muita coisa. Só não construiu tudo aquilo que tornou sua construção possível.

Você apenas teve Sorte investiga até onde realmente vai nossa autoria sobre aquilo que conquistamos: o que pertence ao esforço, às escolhas e à competência, e o que depende de condições que não escolhemos, pessoas que não controlamos, acontecimentos que não previmos e até daquilo que nunca chegou a acontecer.

Não é uma tentativa de negar o mérito nem de reduzir nossas realizações à sorte. É um convite para olhar com mais cuidado para a história que contamos sobre nós mesmos — e perguntar quanto dela realmente começou em nós.

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