Filosofia · 4 minutos

Você teve sorte com coisas que nunca aconteceram.

A sorte costuma ser lembrada pelo que aconteceu. Mas existe outra forma de sorte muito menos visível.

A sorte costuma ser lembrada pelo que aconteceu: uma oportunidade inesperada, um encontro importante, uma proposta que chegou na hora certa. Mas existe outra forma de sorte muito menos visível. Às vezes, o que mais ajudou sua vida foi justamente aquilo que não aconteceu.

O acidente que não ocorreu, a doença que não apareceu, o erro que foi percebido antes de causar dano, a mudança de regra que poderia ter inviabilizado um projeto, mas nunca entrou em vigor. Nenhum desses fatos costuma ganhar espaço na memória porque, para você, nada aconteceu. A vida simplesmente continuou.

Essa é a dificuldade. Nós lembramos das interrupções, não da ausência delas. Uma crise que destrói uma empresa se torna parte central de sua história. Anos de estabilidade dificilmente recebem a mesma atenção. Uma doença grave muda toda a biografia; décadas sem aquela doença parecem apenas normais. Aquilo que não interrompe nossa vida quase nunca parece ter participado dela.

Isso não significa que devemos imaginar todas as tragédias possíveis e considerar sorte o fato de terem sido evitadas. Seria impossível e inútil. O ponto é mais simples: muitos projetos dependem de certas condições permanecerem estáveis durante tempo suficiente, e essa estabilidade não está inteiramente sob nosso controle.

Você pode trabalhar durante vinte anos para construir alguma coisa e ter tomado decisões excelentes ao longo do caminho. Mas, para que essas decisões continuassem produzindo efeitos, muita coisa também precisou não interrompê-las. O corpo precisou continuar funcionando, certas estruturas precisaram permanecer disponíveis e alguns acontecimentos capazes de mudar tudo simplesmente não chegaram.

Por isso, nossa própria história sempre parece mais controlada do que realmente foi. Nós vemos claramente aquilo que fizemos, mas não conseguimos enxergar com a mesma facilidade todas as interrupções que poderiam ter acontecido e não aconteceram.

Talvez uma parte importante da sua sorte nunca tenha entrado na sua memória justamente porque nunca virou acontecimento.

Você apenas teve Sorte investiga até onde realmente vai nossa autoria sobre aquilo que conquistamos: o que pertence ao esforço, às escolhas e à competência, e o que depende de condições que não escolhemos, pessoas que não controlamos, acontecimentos que não previmos e até daquilo que nunca chegou a acontecer.

Não é uma tentativa de negar o mérito nem de reduzir nossas realizações à sorte. É um convite para olhar com mais cuidado para a história que contamos sobre nós mesmos — e perguntar quanto dela realmente começou em nós.

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